Sexta-feira, 22 de Abril de 2016

Acto falhado

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"A presidência holandesa da União Europeia está a entregar um documento às delegações nacionais e à imprensa internacional, no qual identifica os ministros das Finanças presentes na reunião do Eurogrupo. Mas, no espaço reservado à fotografia do ministro Mário Centeno, aparece uma imagem do jornalista da SIC, José Gomes Ferreira."

 

As beneméritas instâncias da União Europeia bem gostariam de ter alguém com as ideias de José Gomes Ferreira (que nome tão injusto e imerecido!) no Ministério das Finanças português. Já há algum tempo que me falta pachorra para ouvir as suas análises, mas o pouco que ouço das suas intervenções diárias na televisão (apenas os breves segundos que medeiam a  sua aparição nas pantalhas e o meu precipitar sobre o comando da televisão com a ideia subitamente urgente de mudar de canal), mostram-me que os seu neurónios continuam empastelados em concepções ultraconservadoras e neoliberais. Fica apoplético com o mais pequeno aumento que seja de ordenados ou pensões, quando o Estado pretende melhorar os serviços públicos ou faça menção de manter alguns direitos sociais que o governo de direita combateu. É um dos mais lídimos representantes do pensamento único pró-troikista que tomou de assalto os meios de comunicação social nos últimos anos.

Não admira, por isso, que Shauble, Draghi e outros eurocratas com nomes impronunciáveis gostassem de o ter como interlocutor.

Quem se lixava eramos nós!

publicado por Aristides às 14:09
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Segunda-feira, 18 de Abril de 2016

RIP liberdade de expressão

 

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"Sindicalista condenado por “desobediência qualificada” devido a “manif” de 100 pessoas

Factos ocorreram a 10 de Junho de 2014, na Guarda. Duas tarjas exibiam as frases: “Presidente incompetente deixe o seu palácio para melhor gente” e “Governo-Rua”.

O coordenador da União dos Sindicatos da Guarda; José Pedro Branquinho, foi condenado pelo tribunal ao pagamento de uma pena de multa, por causa da manifestação realizada naquela cidade, em 2014, durante as comemorações do dia 10 de Junho.

Segundo a sentença, o sindicalista foi condenado pelo Tribunal da Guarda pela prática, em autoria material e na forma consumada, de um crime de desobediência qualificada, a uma pena de 120 dias de multa, no valor total de 840 euros."

O caso ocorreu no dia da reacção vagal do ex-presidente (qua a Maria o tenha lá sem nós, durante muito tempo) Cavaco. Acontece que o espaço era público e a opinião é livre! Ou não?

Pois parece que não. Só espero que os defensores da liberdade de expressão que andaram tão acirrados e combativos aqui há uns dias atrás, façam ouvir o seu protesto, pelo menos tão alto como então.

publicado por Aristides às 17:19
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Sexta-feira, 15 de Abril de 2016

A praga dos Silvas

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"UGT considera que não faz sentido discutir matérias como as 35 horas na administração pública ou os 25 dias de férias no setor privado no parlamento, sem que os parceiros sociais sejam ouvidos.

A UGT denunciou hoje o esvaziamento da concertação social e lançou um desafio ao Governo e às confederações patronais para que se sentem à mesa e cheguem a um acordo em algumas matérias que estão a ser discutidas no parlamento."

Muito engraçado este Carlos Silva. O homem está habituado a dar uma mãozinha aos patrões na Concertação Social, o que lhe vale a ele e à central "sindical" a que preside estarem muito bem vistos nos sectores mais reaccionários da nossa sociedade. Os governos de direita, com o de Passos Coelho à cabeça e as centrais patronais agradecem reconhecidamente os favorzinhos que este simulacro de dirigente sindical lhes tem feito, precisamente em sede de Concertação Social.

Agora entrou em pânico. Não sei se, por uma vez, haver no Parlamento uma maioria capaz de aprovar medidas favoráveis aos trabalhadores, o que pelos vistos não é uma prioridade para este senhor, ou se por ver comprometido o seu papel de bajulador dos patrões, pelo desempenho do qual não deixaria de ser recompensado. Com trinta moedas, de preferência.

Não deverá um dirigente sindical valorizar a existência das melhores condições possíveis para que as reinvindicações dos trabalhadores sejam atendidas e, quando elas existem, aproveitar a conjuntura favorável? Carlos Silva parece não entender isso ou, na pior das hipóteses, entender bem demais!

 

publicado por Aristides às 15:37
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Quarta-feira, 13 de Abril de 2016

O meu artigo no Praça Alta de Abril

Paraísos fecais

 

Grande sururu vai por essa comunicação social com a fuga de informação que permitiu ter acesso aos nomes de um interminável número de pessoas e empresas que, a seu tempo e avisadamente, puseram as suas fortunas a salvo dessa coisa horrível e fora de moda que se chama pagar impostos.

Os já famosos Panama Papers estão a ter o mérito de despertar muita gente para a iniquidade de um sistema que permite aos mais ricos, às maiores empresas, aos agiotas, escaparem a uma das obrigações primeiras e primárias de qualquer cidadão, que é contribuir com uma parte dos seus rendimentos para o bem comum, para um conjunto de despesas a que os Estados não se podem eximir, sob pena de regressarmos à barbárie. Contudo, é cada vez maior o número de autointitulados liberais que opinam que o Estado não deve interferir nas escolhas dos cidadãos, deve renunciar à sua função social, deixar as pessoas entregues ao seu destino e, concomitantemente, cobrar o menor número de impostos possível. A sua argumentação, risível como quase todos os argumentos neoliberais, assenta num raciocínio mais o menos deste tipo: se sabes que tens subsídio de desemprego é claro que não te sentes motivado para procurar emprego; se tens assistência médica gratuita nunca vais querer poupar para os dias piores; os patrões só estão disponíveis para te dar emprego se ganhares pouco e não tiverem que fazer descontos porque assim é que deve ser, etc., etc.

Deixemos por agora este catecismo, embora tenha muitos seguidores nos tempos que correm. Voltemos aos mal chamados paraísos fiscais. Esta expressão surge de um equívoco e teve, na sua origem, a má tradução do inglês da palavra “haven” que literalmente significa “refúgio”, confusão evidente com o vocábulo “heaven” que quer dizer “paraíso”. Confusão com toda a certeza voluntária, dada a conotação negativa de refúgio, em contraponto com a bondade da palavra paraíso. Refúgio significa fuga a qualquer coisa enquanto paraíso é algo a que todos almejam. Problemas de consciência, é o que deve ser.

Parece-me que esta comoção à escala internacional que acordou o espírito justiceiro que há em todos nós está um pouco inflacionada, digamos assim. Será mesmo notícia a existência destes offshores que as grandes fortunas e empresas utilizam para lavagem de dinheiro e fuga aos impostos? Não sabemos todos nós há décadas que eles existem, com o beneplácito das leis nacionais e internacionais e a complacência da opinião pública e publicada? É segredo para alguém que, das vinte grandes empresas nacionais de “referência” que fazem parte do PSI 20, apenas uma(!) tem sede fiscal em Portugal, não contribuindo, assim, para o esforço a que os trabalhadores por conta de outrem fazem para manter o Estado Social?

O que é certo é que somos bombardeados diariamente com a necessidade de abdicarmos de direitos duramente adquiridos porque não há dinheiro. Ora, a culpa é de quem? Dos que, putativamente, vivem acima das suas possibilidades, ou dos que, de forma criminosa, fogem a dar o seu contributo ao esforço colectivo?

Assim sendo, desta não notícia que são os Panama Papers, algo de positivo podemos inferir. Afinal há culpados para os défices, para a dívida pública e para as dificuldades de muitos países em manterem níveis aceitáveis de dignidade social. E não são, pelos vistos os trabalhadores e a sua tão citada falta de produtividade.

Quando, daqui a dias acabar este festival, tudo voltará ao normal. Os offshores continuarão a existir alegremente, a lavagem de dinheiro oriundo da corrupção associada aos grandes negócios continuará a ser a regra e nós, já orientados e indignados para outro qualquer escândalo mais fresquinho e mais conveniente, já teremos esquecido mais este fait divers diluído como foi na espuma dos dias.

Convém, todavia não ser ingénuo. Quando se trata de grandes furos jornalísticos que envolvem tanta gente poderosa à escala global, enchendo páginas e páginas de jornais por todo o mundo, é do mais elementar bom senso reflectir sobre o assunto e, principalmente, não embarcar de imediato na narrativa dominante na comunicação social. E ao fazer esse salutar exercício de ler nas entrelinhas da opinião publicada e dominante, podemos aperceber-nos de algumas coisas, se não esquisitas, pelo menos intrigantes. A primeira é a ênfase que se põe na participação de Putin e outros dirigentes mal amados pelos EUA e seus apaniguados, o que parece até que foi precipitado. A pressa com que se tentaram incriminar líderes que o “ocidente” detesta faz alguma luz sobre o assunto.

A segunda perplexidade é ainda maior: como perceber que a maior praça financeira do Mundo, o país onde pontificam as maiores multinacionais e onde se fazem os maiores negócios e se movimentam por hora recursos financeiros superiores aos PIB’ s de dezenas de países, não constar em nenhum dos famosos papéis? Não há um único homem de negócios norte-americano envolvido? Será de crer?

Não me aprece verosímil que o país sede de Whal Street esteja fora deste negócio. Cá para mim, aqui há gato!

publicado por Aristides às 18:46
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Terça-feira, 12 de Abril de 2016

Quem dá mais?

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António Franco, antigo embaixador de Portugal no Brasil sublinha que no Brasil assiste-se a um "jogo político feroz para cativar os deputados indecisos ou os que ainda não exprimiram a sua opinião". Estes "serão pouco mais de 120 e deverão estar-lhes a ser prometidos 'mundos e fundos', quer pelos apoiantes de Dilma Rousseff quer pelos defensores da destituição".

Era curioso saber quanto é que os impolutos deputados anti-corrupção estarão meter ao bolso para venderem o seu voto. A situação criada no Brasil, o envolvimento de políticos dos mais variados campos em negócios ilícitos e golpadas, leva-nos a concluir que o problema  com o Brasil é a corrupção, mas o problema com o PT e Dilma não é a corrupção!

publicado por Aristides às 16:40
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Segunda-feira, 11 de Abril de 2016

A boa imprensa dos EUA

"O governador do estado do Mississipi, no sul dos Estados Unidos, assinou nesta terça-feira uma lei que permite aos proprietários de estabelecimentos comerciais e aos funcionários públicos recusar atendimento a casais homossexuais com base nas suas crenças religiosas."

Esta notícia é já da semana passada, ainda antes dos papéis do Panamá terem vindo poluir o ambiente mediático e, ou muito me engano, ou passou completamente despercebida à maioria dos cidadãos.

Outro galo cantaria se esta medida, em vez de ter lugar num país tão democrático como são os EUA, acontecesse noutro país que não beneficiasse das graças dos isentos e imparciais meios de comunicação social que nos moldam a opinião. Imaginem que esta lei era aprovada num qualquer recanto da Rússia ou da Venezuela! Nem quero imaginar a chinfrineira dos defensores dos Direitos Humanos, do Milhazes, dos escribas do Observador e do resto da cáfila bem pensante e politicamente correcta que não nos desampara a loja nem por nada!

Bom, mas como é nos EUA, quem sabe se não deveremos imitar?

publicado por Aristides às 17:01
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Sexta-feira, 8 de Abril de 2016

Jacques Brel, que morreu tão cedo

 O grande Jacques Brel faria hoje 87 anos. A minha pequena homenagem a um dos cantores/compositores/poetas que mais admiro e aprecio. 

publicado por Aristides às 19:16
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Quinta-feira, 7 de Abril de 2016

Paraísos fecais

Este "escândalo" dos papéis do Panamá já foi divulgado domingo. E, desde então, algumas questões se levantaram no meu espírito. Como escreveu Pedro Tadeu no Diário de Notícias, num artigo de que transcrevi um excerto, novidades não há nenhuma. Toda a gente sabia há décadas que estes offshores existiam e para que é que existiam. Esse generalizado e criminoso sistema de os poderosos lavarem dinheiro ou fugirem ao fisco já não faz abrir a boca de espanto a ninguém. Todos sabemos como os mais ricos gostam de se eximir ao esforço colectivo que permite haver escolas, hospitais, polícia, etc.

Uma coisa que me intriga e muito é o facto de, num fenómeno global e mundial como é este, haja como que uma zona negra (ou branca, se quiserem) com o tamanho do Estados Unidos da América. Isto é, a grande potência financeira, sede de Whall Street e dos maiores bancos mundiais, não tem um homem de negócios, uma empresa, um banco, ninguém referido nos famosos papéis. Não é intrigante?

Outra curiosidade é o facto de a divulgação dos papéis do Panamá terem provocado ondas de choque por esse mundo fora, tendo até provocado a demissão de um primeiro ministro e nós ainda não podermos saber o nome das 244 empresas que vêm citadas nos ditos papéis. Tudo porque o Expresso, que tem o monopólio da informação respeitante ao nosso país, com origem no consórcio de jornalistas que divulgou a fuga, só sair ao sábado.

Lá teremos de esperar por sábado.

publicado por Aristides às 16:20
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Quarta-feira, 6 de Abril de 2016

Pedro Arroja e as mulheres (outra vez...)

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"O economista Pedro Arroja defende que a ascensão generalizada das mulheres nas direções partidárias é um sinal da degenerescência dos partidos.

"Eu sei que dizer que as mulheres são diferentes dos homens é hoje em dia muito impopular. É muito impopular mas é verdade", diz Pedro Arroja no final de um texto publicado no domingo no blogue Portugal Contemporâneo."

in Diário de Notícias

Este homem é fantástico! Que seria de nós sem o Pedro Arroja e as suas arrojadas (para não lhes chamar outra coisa) opiniões? É um fartote.

Talvez ainda nenhuma estação de TV se tenha lembrado, mas estou em crer que Arroja era o nome mais indicado para substituir Marcelo nas suas prédicas dominicais. Tinha muito mais audiência do que a Marisa Matias, de certeza.

publicado por Aristides às 17:17
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Terça-feira, 5 de Abril de 2016

"Os Papéis do Panamá são mesmo notícia?"

O jornalista Pedro Tadeu, na sua coluna de opinião no Diário de Notícias, escreveu hoje um texto claríssimo e inatacável sobre os denominados papéis do Panamá, com o título que encima este post, de que respigo uma parte. Aqui vai:

"De resto, para ser franco, estamos escandalizados porquê? Então não sabíamos que as offshores existem? Não sabíamos que elas serviam para branquear dinheiro obtido por corrupção, roubo, violência, traficância? Não aceitámos como "legal" a sua utilização para evasão fiscal de dinheiro "respeitável"? Não sabíamos que parte das grandes fortunas pessoais no mundo, bem como receitas equívocas de conglomerados empresariais, usam offshores para enganar Estados, roubar contribuintes?

Não confirmamos com o Swiss Leaks que a Suíça lava mais branco? Não lemos o Lux Leaks, onde o atual presidente da Comissão Europeia apareceu como facilitador da evasão fiscal? E não aceitámos que o inquérito político ao caso morresse no Parlamento Europeu?

Não estamos fartinhos de saber que só uma empresa do PSI 20, em Portugal, tem a sua sede fiscal no nosso país? Não aceitamos, cúmplices, este estado de coisas no mundo? Não ficámos já todos habituados à globalização da falcatrua? Não é já corriqueiro? Estamos espantados porquê?... Os Papéis do Panamá são mesmo notícia?"

publicado por Aristides às 17:08
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Segunda-feira, 4 de Abril de 2016

Coelho polido

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Durante o fim de semana, perante o olhar protector e a presença  tutelar e totémica de um busto de Sá Carneiro em pleno palco do Congresso do PSD em Espinho, Passos Coelho mostrou que está muito mais polido do que da última vez que passou pela oposição. Toda a gente se lembra da expressão um pouco labrega com que o actual líder do PSD classificou a proximidade de chegar ao poder. Disse ele, sem os cuidados de linguagem que a proximidade das televisões e o decoro aconselhariam, que estava na hora de "ir ao pote".

Desta feita, talvez bem aconselhado (até que enfim!), trocou a alarvidade daquela expressão por um discreto e civilizado "não ter pressa de chegar ao poder".

Como diria o outro: estão verdes...

publicado por Aristides às 17:00
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Sexta-feira, 1 de Abril de 2016

Trágico-marítima

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André Carrilho - "Mediterranean Sea", for @DNtwit - Silver Medal at the Comic and Cartoon Art Annual 2016, Society of Illustrators, USA. FLIC.KR

 

publicado por Aristides às 15:48
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Quinta-feira, 24 de Março de 2016

Homenagem a um amigo

 Sei exactamente onde estava há dez anos atrás. Porquê? Porque há datas que ficam marcadas a fogo na nossa memória e esta é uma delas.

Infelizmente, é-o pelos piores motivos. Há dez anos partia, por vontade própria, o meu grande amigo Raul.

Em jeito de homenagem, uma bela canção que Brel dedicou a um grande amigo quando desapareceu do mundo dos vivos e que eu dedico à memória do Raul.

 

publicado por Aristides às 17:29
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Quarta-feira, 16 de Março de 2016

Depois de prolongada ausência, aqui vai o meu artigo no Praça Alta de Março

A primavera marcelista

Em Portugal somos muito atreitos à longevidade dos governantes. Umas vezes por inércia, outras porque tem que ser, permitimos que o mesmo político lidere o nosso destino colectivo por várias décadas. Aconteceu com Salazar porque teve que ser. A ferocidade da sua polícia política, aliada a uma censura implacável e embrutecedora, sustiveram um regime anacrónico durante quase meio século.

Ainda hoje se fazem sentir os efeitos dessa censura e do esforço estupidificador do pensamento único imposto pelo regime fascista. Tornam-se visíveis (esses efeitos) quando vemos cada vez mais pessoas com saudades do ditador e ansiando por um regime em que imperasse a ordem, os políticos não fossem corruptos e vivêssemos todos na paz dos anjos. Esta pobre gente não entende que bastava hoje haver censura para que nenhum daqueles problemas, normal e injustamente associados à Democracia, nos incomodasse. Os problemas existem porque se fala deles. Se não aparecessem nas televisões e nos jornais é como se não existissem. Sempre foi assim…

Já a longevidade de Cavaco terá mais a ver com a inércia preguiçosa de que somos cultores exímios. Não concordamos com um governo ou um presidente, fartamo-nos de os insultar nas conversas de amigos, dizemos deles o que Maomé não disse do toucinho (passe a referência pouco consensual nos dias que correm), mas, em dia de eleições lá vai o voto e a cruzinha para o até então vilipendiado político. Que o voltará a ser logo no dia seguinte, eleito embora por tantos dos seus detractores. É a acomodação, o este já nós conhecemos, ainda havia de vir outro pior, mudar para quê, se são todos iguais.

E assim, neste entretecer, foi tecendo Cavaco a sua teia. Quase uma dúzia de anos como primeiro-ministro e uma dezena bem contada como presidente da República. Custa-me sinceramente enxergar o que viram os meus concidadãos nesta hierática figura, para lhe depositarem nas mãos o leme desta tosca e frágil embarcação. Bom, mas sobre isto já escrevi abundantemente e, por isso, está na altura de mudar de agulha, tal como acontece no Palácio de Belém.

Contudo, qualquer coisa nestes dias de mudança me faz descortinar certas similitudes de personagens e situações entre dois períodos da nossa História recente. Passo a explicar. O novel presidente Marcelo é, todos o constatam, o oposto da desajeitada figura do seu antecessor. Relaciona-se bem com os populares, está à vontade no meio das pessoas, tem sentido de humor, é culto, sabe estar em qualquer situação. Querem um retrato a negativo mais perfeito de Cavaco Silva? Já declarou até que vai comunicar mais com os portugueses através da televisão, reparando uma das falhas mais salientes do anterior inquilino de Belém: a comunicação. Os improvisos de Cavaco eram inenarráveis, apenas sentindo algum visível desembaraço quando tinha que falar dos mercados financeiros e questões afins. As ensaiadas e solenes entradas e saídas de cena, aquando duma comunicação mais formal eram de um ridículo confrangedor.

Dito isto, as pessoas da minha idade ou mais velhas, já devem ter descoberto as similitudes a que me referi acima. Há cerca de cinquenta anos um político severo, paternalista e autoritário, deu lugar a um sucessor mais afável, simpático e comunicativo, também ele, à sua maneira, bem diferente do seu antecessor. Também se chamava Marcelo e foi o pioneiro do estratagema das Conversa em família para apaziguar ânimos e calar revoltas.

Tanto o Marcelo de há 50 anos, como o seu afilhado agora, sucederam a supostos especialistas das Finanças, que tinham vindo do Interior do país até à capital fazer os possíveis e os impossíveis para corrigir os desmandos de irresponsáveis governos anteriores. Ambos enfrentaram a desconfiança de uma certa elite urbana e cosmopolita que olhava de lado os algo bisonhos e austeros professores de Finanças. Ambos superaram esses obstáculos e governaram por dezenas de anos. Finalmente ambos tiveram como epígonos Marcelos com personalidades, se não opostas aos seus antecessores, pelo menos bem diferentes.

A História repete-se?

PS: Não queria deixar passar sem uma referência o artigo que o meu amigo Alcino Morgado aqui escreveu no último mês. As nossas diferenças ideológicas e de opinião, bem visíveis no que aqui escrevemos mensalmente, nunca ofuscaram uma amizade que, embora não sendo íntima, já tem uns bons anos a sustentá-la. É por isso que me sinto à vontade para um pequeno reparo. Quando escreve, com ironia, que o candidato apoiado pelo PCP, Edgar Silva, ganhou como os comunistas ganham sempre que há eleições, esquece-se de duas questões, a meu ver importantes. Primeira: tanto o candidato como o Partido que o apoiou, reconheceram na própria noite das eleições o resultado extremamente negativo e penalizador obtido nas urnas. Isso é inegável, basta ver as gravações. Segundo: desde o ano 2000, em cada eleição para a Assembleia da República, a coligação que o PCP integra, a CDU, tem subido sempre de votos, percentagem e deputados. A meu ver, e tendo em conta o número de vezes que já foi decretada a morte do PCP, julgo não podermos falar em maus resultados. Quando se repete a cassete, às vezes erra-se.

publicado por Aristides às 16:37
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Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2016

Shauble e a ditadura dos mercados

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“Estamos atentos aos mercados financeiros e Portugal deve estar ciente de que pode perturbar os mercados financeiros se der impressão de que está a inverter o caminho que tem percorrido. O que será muito delicado e perigoso para Portugal”, disse o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schauble.

Perturbar os mercados financeiros, eis a grande preocupação desta gentalha que governa a Europa. Não esquecemos também que este era o quase único argumento brandido por Cavaco nos seus já célebres discursos. Traduzindo em miúdos, as pessoas que se lixem, o que interessa mesmo é os mercados estarem confortáveis com os seus obscenos rendimentos, os seus juros agiotas e a sua tão querida desregulamentação social.

A chantagem continua, infame e compressora, agora sobre o Orçamento do Estado português que, muito timidamente, ensaia um caminho um pouco diferente da austeridade pura e dura que os eurocratas neoliberais nos impõem há anos como única alternativa possível.Chantagem essa, infelizmente aplaudida e subscrita por muitos políticos portugueses. 

Será possível escapar a esta ditadura financeira?

 

publicado por Aristides às 16:53
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Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2016

Merkel e as saudades do aluno exemplar

Ao lado do atual primeiro-ministro português, numa conferência de imprensa em Berlim, a chanceler alemã não esqueceu Passos Coelho. "O antecessor de António Costa conseguiu coisas impressionantes", disse Angela Merkel à imprensa, depois de um almoço com António Costa na sede do governo alemão.

"Os últimos anos em Portugal não foram fáceis. Mas foram bem-sucedidos", prosseguiu a chanceler, dizendo ainda que importa "continuar o caminho bem-sucedido", mas agora com "mais investimento e mais emprego".

Está com saudades do Pedrinho a tia Merkel. Ainda por cima era tão educado, tão bem mandado, fazia os trabalhos de casa sem refilar (aliás, fazia até mais do que a professora mandava), como  poderia não deixar saudades?

Acontece que, com todos os defeitos deste Orçamento, a chamada "luz verde" da Comissão Europeia a um documento que causou tanta azia à direita portuguesa e aos burocratas de Bruxelas, provou que é possível negociar coma UE e com a senhora dona Merkel sem ser de cócoras.

publicado por Aristides às 16:03
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Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2016

O Nobel anda muito mal afamado. Deve ser das companhias...

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O aspirante a candidato republicano à presidência dos EUA, Donald Trump, está incluído numa lista preliminar de candidatos ao Prémio Nobel da Paz 2016, cujo vencedor será anunciado em outubro.

Nome do pré-candidato republicano à presidência dos EUA foi indicado por um nomeador dos EUA, “pela sua ideologia para a paz através da força".

So o facto de um indivíduo destes poder vir a ser presidente dos EUA é assustador. Como assustadoras são as multidões que o apoiam, concordam com ele e votam nele.

Deixa de ser assutador e passa a ser surreal alguém pensar que este xenófobo fascista, misógino acéfalo e tudo o mais que de mal se possa dizer dele, tem perfil para ganhar o Prémio Nobel da Paz!

E daí...pensando bem.... o Henry Kissinger também já o ganhou.

publicado por Aristides às 15:21
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Quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2016

Almeida de outros tempos

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 Continuamos no mesmo local das últimas fotografias publicadas: actual picadeiro descoberto com o paiol ao longe.

publicado por Aristides às 16:29
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O que faz falta: acalmar os burocratas (de Bruxelas ... e o Rangel, claro!)

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"Num debate no hemiciclo de Estrasburgo, sobre o próximo Conselho Europeu, o euro deputado do PCP, João Ferreira aproveitou a presença de Jean-Claude Juncker para dedicar a sua intervenção às conversações em curso entre Bruxelas e Lisboa em torno do projeto de plano orçamental português, que classificou como uma ingerência "de recorte colonial" da Comissão Europeia.

De acordo com o eurodeputado, "a Comissão Europeia está a levar a cabo uma inqualificável operação de pressão e de chantagem que visa condicionar o Orçamento de Estado português para 2016", e, "com uma arrogância de recorte colonial, quer perpetuar o caminho que os portugueses rejeitaram nas últimas eleições, o mesmo caminho de empobrecimento, exploração e esbulho".

"Sabe de uma coisa, senhor Juncker? A Constituição da República Portuguesa diz que é da exclusiva responsabilidade da Assembleia da República organizar, elaborar e aprovar os orçamentos de Estado. Acalme lá por isso os seus burocratas. O que está em causa neste orçamento é cumprir com compromissos assumidos com o povo português, é devolver aos portugueses uma parte daquilo que lhes foi roubado nos últimos anos, é parar o caminho de afundamento nacional", referiu.

A terminar, João Ferreira comentou que, "quando estes objetivos, que são justos apesar de modestos e limitados, entram em contradição com as regras e os constrangimentos da UE, isso diz muito daquilo em que tudo isto se tornou: um projeto condenado e sem futuro, que não deixará saudades"."

Quase nem são necessários comentários a esta atitude do deputado de um Partido a quem tantos vaticinam o fim próximo e que gostariam de ver morto. Podem esperar sentados, que não é o resultado de umas eleições presidenciais que conseguem o que a PIDE, Salazar, Carlucci, etc., não conseguiram. Esta é uma posição firme e coerente, em defesa dos interesses dos que vêm sendo prejudicados pelas políticas de austeridade que a Comissão Europeia e o anterior governo implementaram com os resultados que se conhecem.

É um bom exercício comparar a intervenção deste deputado comunista com a dos deputados da área da PàF, nomeadamente o trauliteiro Paulo Rangel, que anda a fazer pressão junto da Comissão Europeia para que o Orçamento de Estado não passe sem alterações de fundo, penalizadoras do povo português. Dá mesmo vontade de lhes chmar uns nomes daqueles que se socorrem do vernáculo a benefício da expressividade.

 

 

publicado por Aristides às 12:02
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Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2016

Almeida de outros tempos

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 Mais uma fotografia do local onde agora é o Picadeiro descoberto.

 

publicado por Aristides às 16:15
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