Quinta-feira, 17 de Novembro de 2016

O meu artigo de Novembro no Praça Alta

Especificidades da Democracia

 

Impossível evitar o assunto do momento, ou seja, o resultado das eleições nos EUA. Qualquer análise, por superficial que seja, identificará as sondagens e estudos de opinião como os primeiros derrotados daquele sufrágio. Com efeito, os estados ganhos por Trump e o número de delegados conseguidos não constava de nenhuma previsão, nem nas obtidas junto dos eleitores que acabavam de votar. Esta circunstância acaba por ser bastante estranha, já que as sondagens à boca das urnas são das mais fiáveis e precisas.

Sem me basear em nenhum estudo ad hoc, tenho uma opinião sobre esse facto: muitos norte-americanos, mesmo depois de terem votado em Donald Trump, não se achavam confortáveis com isso e sentiam-se até intimamente envergonhados com o que viam como algo de reprovável. Não me admiraria encontrar nos EUA de 9 de novembro o mesmo sentimento do day after do Brexit. Muitos britânicos votaram pela saída da Grã Bretanha da União Europeia como forma de protesto contra os “políticos” nunca pensando que esse voto poderia sair vencedor. Daí a estupefação e arrependimento de alguns deles quando viram a saída confirmada.

Acredito que muitos norte-americanos, apesar de profundamente reacionários, votaram em Trump para protestar contra o “sistema”, os “políticos” e a odiada Washington, nunca imaginando que estavam a eleger alguém completamente desclassificado para um cargo tão poderoso quanto perigoso. Se assim foi, como creio que foi, é tarde para arrependimentos.

As presentes eleições levantam, contudo, uma outra questão de enorme importância que tem a ver com o sistema eleitoral que vigora naquela super potência. Todos crescemos a ouvir por todo o lado que os EUA são, não só a maior democracia do Mundo, como a melhor. Estamos cansados de ouvir falar no sonho americano e de como toda a gente pode atingir os seus sonhos, por mais desmedidos que sejam, se acreditar muito nisso e lutar por eles. E dão até o exemplo de como Obama, um negro, vejam só!, conseguiu chegar à Casa Branca. Não falando já de quão perigosa é essa treta dos sonhos, não podemos esquecer que o que levou Obama à presidência, assim como todos os outros antes dele e os que lhe seguirão, são os muitos milhões de dólares que patrocinadores, apoiantes e lobbies estão dispostos a desembolsar.

Vejamos agora a questão da Democracia e da sua decantada qualidade. Pela segunda vez, em cerca de quinze anos, chega à cadeira presidencial o candidato com menos votos escrutinados. É o sistema de eleição indireta que se baseia em eleger delegados, estado a estado, para o Colégio Eleitoral, dizem-nos os comentadores sem o mínimo sinal de comoção ou de desaprovação. Um ou outro politólogo norte-americano repara na incongruência e esboça um tímido arremedo de crítica e de sugestão para mudar as coisas. Compreende-se: um país que enche a boca de Democracia, que a espalha urbi et orbi nem que seja à bomba, e que intramuros dá a vitória ao candidato menos votado, não será um exemplo de coerência que mereça ser emulado. Mas logo vem a sacrossanta, glorificada e intocável Constituição que se ergue como obstáculo intransponível e, portanto, perpetuadora destes aparentes paradoxos.

Ora, no caso vertente da eleição que opôs Hillary a Trump, aquela teve, no conjunto do país, mais cerca de meio milhão de votos que o seu opositor. Não é muito, dirão alguns. Pois não, não é muito, mas é mais. E, segundo creio, democracia tem a ver com a vontade da maioria.

(Parece que já estou a ouvir algumas vozes que, com grande imaginação e alguma má fé à mistura, comparam essa especificidade norte americana com a solução governativa encontrada em Portugal há um ano atrás. Ora as situações além de não serem comparáveis, são até antagónicas. Nós, por cá, temos um governo de um partido, mas sustentado numa maioria parlamentar, por sua vez escorada numa maioria de votos a nível nacional. Haverá alguma similitude nas situações? Afinal, a questão nem é da esfera política, é simples aritmética. Dá para perceber, ou não?)

O que me admira é esta contradição insanável não merecer dos encartados apoiantes do regime de Washingtin DC que enxameiam os meios de comunicação social um vestígio de crítica ou desagrado.

São estas especificidades da democracia made in USA que me deixam estupefacto! Enfim, medianamente estupefacto.

 

publicado por Aristides às 13:46
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2 comentários:
De Manuel Norberto Baptista Forte a 21 de Novembro de 2016 às 15:43
Efectivamente a "democracia Americana" tem algo de muito dificil de compreender. Desde o sistema de votação que não é directo, ainda têm a Câmara de Representantes com delegados de cada Estado na proporção das suas populações (...câmara inferior), e o Senado com dois representantes por cada Estado (...a câmara superior). Se Câmara dos Representantes vota Leis e Orçamento, o Senado tem a ver com a política exterior dos EUA.
De Manuel Norberto Baptista Forte a 21 de Novembro de 2016 às 16:00
Uma inopinada carregadela na tecla "enter" deu nisto, que me desculpem os possíveis leitores do meu comentário.
Prosseguindo: ...a Constituição dos Estados Unidos prevê um sistema de alterações, por intermédio de ... emendas. Enfim uma série de organismos que levam (quanto a mim) a emperrar e a complicar a governação de um País.
Assim sendo, mais dificil se torna perspectivar qualquer sonho em tempo util, mais a mais quando acabou de ser eleito um americano pelo Partido Republicano de seu nome ... Donald Trump.
Especificidades americanas à parte, penso que o sistema eleitoral Português, é bem melhor, mais democrático, e mais apelativo à participação do que o Americano.

En suma, e talvez extenso demais no meu comentário, gostei muito de "Especificidades da Democracia" - "Praç Alta" - Novembro de 2016.


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