Quarta-feira, 19 de Outubro de 2016

O meu artigo deste mês no Praça Alta

Um panorama sombrio

Quando o próximo número deste jornal sair, já terá ocorrido a eleição mais mediatizada do mundo e talvez já se saiba se o cargo que mais poder transmite ao seu ocupante vai pertencer a um homem ou a uma mulher. Esta questão do género não é de somenos no ambiente politicamente correto em que vivemos: veja-se a pressão para que o próximo secretário-geral da ONU fosse uma mulher, o que constituiu a principal ameaça à entronização de Guterres.

Num mundo que privilegia o espectáculo, o fogo de artifício, o show off, em vez da substância e do conteúdo, é natural que o circo quadrienal montado para eleger o caudillo da maior potência bélica mundial concite atenções, movimente milhões e mobilize histriões. Estamos habituados.

Este ano, porém, a coisa quase descamba. O candidato do Great Old Party resolveu mandar as convenções às urtigas e tratou de adoptar um discurso radical, preconceituoso, reaccionário e, pelos vistos, mobilizador. Para um europeu, custa a crer que um fulano como Trump, com a sua figura e o seu passado, consiga ser nomeado para a corrida à Casa Branca, deixando pelo caminho tantos candidatos muito mais plausíveis e expectáveis. É ainda mais difícil de compreender que tanto norte-americano subscreva as ideias do candidato, que têm na indigência cultural e intelectual a sua principal característica. Mas, pelos vistos, assim é.

Mas como normalmente há uma razão para as reacções menos racionais, aqui ela também existirá. E não é uma, são várias as que justificam a emergência do efeito Trump. Uma dessas razões, que não será despicienda, é o cansaço que o cidadão comum sente em relação aos políticos convencionais, cheios de retórica e vazios de ideias, esquecendo no dia a seguir às eleições tudo o que defendera em campanha. É sentirem que as elites políticas estão cada vez mais afastadas dos reais problemas sentidos pelas populações; que as suas preocupações contam muito pouco nos corredores do poder e nas alianças espúrias que aí têm lugar. Acresce, no caso norte-americano, que a candidata rival de Trump, Hillary Clinton, está mergulhada no desacreditado sistema até ao tutano, tanto pelos laços familiares, como pelos altos cargos que ocupou até agora.

Se a tudo isso, acrescentarmos o desastre que tem sido a intervenção militar norte-americana overseas, os inimigos que esse intervencionismo tem granjeado e o terrorismo que, como espada de Dâmocles, pende sobre as assustadas cabeças dos seus cidadãos, teremos reunido mais do que motivos suficientes para que o cansaço e o desânimo levem à vontade de experimentar algo diferente, nem que esse algo pareça estúpido.

Abro parêntesis para reconhecer que este fenómeno de premiar eleitoralmente o populismo xenófobo e reaccionário não é monopólio dos EUA: aqui mesmo na Europa a extrema direita, os neonazis e os fascistas estão em alta. A França, a Hungria, a Áustria, a Ucrânia, etc., aí estão para não esquecermos que o inimigo está aí e vive entre nós.

Pois bem, são estes os colossos que se enfrentam: um multimilionário especulador, misógino e demagogo, tarimbado em televisão como apresentador de reallity shows, nutrindo um profundo desprezo ou mesmo ódio, por hispanos, muçulmanos, negros, refugiados, enfim, tudo o que não seja WASP (White, Anglo Saxonic, Protestant) prometendo recuperar a grandeza perdida do Império. Por outro, uma representante do sistema sediado na distante e odiada Washington D.C., corresponsável pelos sucessivos fracassos do intervencionismo militar dos norte-americanos por esse mundo fora e que já se salda por muitas centenas de milhares de mortos, casada com um ex-presidente com mandatos salpicados por escândalos e ela própria com algumas gafes difíceis de justificar.

Uma destas duas figuras vai ter proximamente nas mãos um poder que mais nenhum mortal tem. Vai ter o poder de decidir sobre a sorte de populações inteiras, de arsenais nucleares, dos níveis de poluição e da qualidade ambiental, de sanções, bloqueios, boicotes, etc.

Tendo em conta os personagens envolvidos e as suas futuras responsabilidades, o panorama não se afigura nada animador, pois não?

publicado por Aristides às 11:58
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1 comentário:
De Manuel Norberto Baptista Forte a 20 de Outubro de 2016 às 14:55
Um artigo de opinião actual em termos de sociedade Mundial que se acha de actualidade ímpar.
Só não "verá" quem não quiser, ou quem prefira ausentar-se de opinar.


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